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Rara publicação de 36 págs encontrada pelo professor de História Francisco Carballa foi editada nesta cidade em 1915, sendo impressa na capital paulista pela tipografia de Pocai Weiss & C. :
 

a Capella do Embaré --1915  - parte 2

A praia do Embaré, com a vastíssima placidez de seu horizonte recortado por montanhas, é adequada ao recolhimento e à meditação, abrindo, por igual, as asas do pensamento para o elevar às mais sublimes e remotas paragens.

Com a vida moderna de banhistas que ali afluem, oferece todas as comodidades; e sem calmas excessivas nem frios agrestes, conserva uma temperatura agradabilíssima, que permite passar as horas em frente do mar, vendo um ou outro penacho de fumo ondeante dos grandes transatlânticos, ou a alvura das velas de uma barca.

Os que vão sobre as ondas e avistam a terra distante, sentem uma alegria consoladora, proveniente da quebra da monotonia de uma viagem marítima. Almas ansiosas, na iminência de um perigo constante, rejubilam vendo terra e curvam-se reverentes quando a vista descobre, erguida no alto de modesto campanário, ou de suntuosa catedral, a Cruz redentora, abrindo os braços às amarguras e sofrimentos. Bem a conhecem os navegantes nas provações da tempestade, em que se encomendam a Deus.

Erguer fronteiro ao abismo das águas um desses padrões veneráveis da fé, é praticar um benefício piedoso, e impetrar ânimo e coragem nos corações oprimidos. Obedecendo aos sentimentos religiosos de que era dotado, a 19 de setembro de 1875 o saudoso visconde, então barão de Embaré, inaugurou na praia de Embaré uma capelinha modesta que tanto realce e esplendor agora vai tendo.

Ali se celebrou o culto católico durante a vida dos exmos. viscondes; mas, com o triste desaparecimento do mundo dos vivos do nobre titular, e mais tarde da sra. viscondessa, a capelinha deixou de funcionar.

Ligando sempre um grande interesse a esta obra de seu marido, a boa senhora viscondessa do Embaré deixou-lhe um legado de dez contos de réis, que nunca foi entregue à Irmandade legalmente constituída, nem a qualquer outra pessoa, como se pode verificar no Arquivo do tabelião Pacheco.

Uma tarde, passeando na praia, a minha atenção foi particularmente chamada pela exma. sra. d. Eulina Nunes Pires, que pronunciou esta frase:

- Que pena! Um lugar onde se celebrou a religião de Cristo estar assim desamparado.

Vi como seria realmente digno de todo o esforço reviver nesse lugar o tempo passado. A ilustre e virtuosa dama prometeu-me todo o auxílio em favor desta nova cruzada, e assim, movido pela minha crença, fui examinar o que era a Capelinha do Embaré. 

Votada quase a um abandono estéril, o tempo e a falta de zelo, de quem tomou conta da Capelinha, iam cavando a sua ruína. O mato invadira todo o terreno, e o capim apressava a sua missão destruidora dum modo assombroso.

As paredes, forradas de ladrilho branco, tanto externa como internamente, racharam-se, apresentando enormes fendas. O revestimento do assoalho, no corpo da capela, estava todo estufado. Os dois altares de madeira acusavam uma miséria sombria, vendo-se as imagens descoladas, devido à umidade.

Era igualmente desolador o aspecto da sacristia. O capim minara o archaz e todo o madeiramento duma forma cruel, ao passo que as paredes se haviam afastado dos pontos primitivos, pela expansão vgorosa de uma figueira brava. Tal era o estado em que encontrei a capela do Embaré, ao fim de quase vinte anos de um abandono inqualificável!

O amor pelas tradições da minha terra, e a consideração pela amizade que ligavam meus pais aos saudosos viscondes do Embaré, animaram-me a aceitar a honra e o convite com que me distinguiu o então vigário da paróquia, revmo. sr. cônego dr. J. Martins Ladeira, para realizar a reconstrução da capela.

Para levar a cabo esta tarefa, havia de dividir o trabalho, por assim dizer, em duas partes: a obra material e as práticas do culto. Consegui angariar o auxílio prestimoso da virtuosíssima senhora d. Eulina Nunes Pires, esposa do sr. Annibal Nunes Pires, então ajudante de guarda-mór da Alfândega de Santos. Tivemos de sustentar lutas bem fortes para vencer as dificuldades que impediam a realização dos nossos desejos.

Só a tenacidade armada por ideal sublime, e a certeza de uma vitória completa, podiam dotar-nos com os poderes indispensáveis para triunfar dos espetáculos que se nos deparavam. Todos os nossos esforços visavam à glória de Deus, e decerto, Ele nos ajudou, reconhecendo os nossos sacrifícios.

A reconstrução da capela foi contratada com o empreiteiro Sammartini, obedecendo à planta do engenheiro V. Spagnuolo. Estavam as obras quase concluídas, quando fomos obrigados a interrompê-las, em vista de um incidente levantado pelos referidos engenheiro e empreiteiro, que, pretendendo fugir ao contrato estipulado, vinham lesar a capela. Foi a questão entregue ao advogado dr. Waldomiro Silveira, que a resolveu amigavelmente.

As obras restantes ficaram então a cargo do construtor Luiz Ferreira, que as terminou muito a nosso contento, e que lhes dedicou longas horas de trabalho e atenção. Humilde e honesto este homem, que a morte já nos roubou, foi um grande colaborador da nossa missão e à sua memória prestamos hoje aqui uma sentida homenagem de gratidão. Não queremos também ir mais além sem exarar já o muito que devemos à generosidade do bom comércio santista, que nos prodigalizou fartos motivos para lhe tributarmos um perdurável reconhecimento.

Terminada, enfim, a reconstrução da capela, fez-se a solene inauguração no dia 24 de novembro de 1911. Pelas 7 horas da noite,

 

 

 

 

 

 

D. Zizi Martins, gentil senhorita que presidiu às festas
Foto publicada na obra original

o revmo. cônego dr. Martins Ladeira, revestido de pluvial e estola, conforme o Ritual Romano, lançou a bênção na capela em presença de grande número de fiéis. No dia imediato, às 11 horas da manhã, houve missa cantada pelo padre Sérgio Gonçalves, acompanhada a grande orquestra, regida pelo maestro Accácio Gusmão. Ao evangelho subiu ao púlpito o signatário destas linhas, pregando o sermão alusivo à festividade e ao seu alcance moral.

À noite, deviam realizar-se a procissão, iluminações e fogos de artifício, e outros divertimentos, que foram transferidos por causa do violento temporal que se desencadeou nessa tarde. Este desagradável acontecimento contribuiu, porém, para que, no domingo seguinte, as festas adiadas tivessem maior brilho e animação. Foi festeiro o estimável e benemérito cavalheiro sr. Ernesto Lisboa, a quem a capela do Embaré e todas as empresas de caridade tanto devem.

As festas de Santo Antonio têm sido celebradas com grande esplendor todos os anos. No ano de 1912 foram festeiros os srs. Raul Dantas e dr. João Carvalhal Filho. No ano de 1913 foi festeiro o benemérito sr. cel. Antonio Cândido Gomes, que também muito se tem esforçado em prol da capela.

Desde que se reabriu a capela, o culto tem sido muito concorrido, tornando-se forçoso aumentá-la, o que acarretava despesas e encargos, para os quais não havia recursos. Lembrei-me então aproveitar a estação balnear de 1913, e pedir à gentil colônia, na sua maioria composta de famílias de S. Paulo, e que muito freqüentavam a capela, para organizar uma festa de caridade que revertesse em benefício da mesma.

Atendendo ao meu pedido, uma comissão composta das distintas senhoritas Julieta e Ilda Melillo, Sarah Pereira da Rocha, Julinha e Marinha Mendes e Galvão, resolveram levar a efeito um Salon d'Art a que emprestaram todo o brilhantismo do seu talento e da sua mocidade.

Essa festa, realizada a 16 de junho de 1913, rendeu 2:070$000 mil réis, que empreguei no aumento da capela, que ficou com o dobro da extensão primitiva que era de 12 metros, do altar à porta da rua, e com uma sacristia de um metro e 80 centímetros de comprimento, por 5 metros e 15 centímetros de largura.

Com a reforma que se fez, as suas dimensões são de 15 metros e 60 centímetros de comprimento por 5 metros e 15 centímetros de largura. Para obter este resultado, economizando dinheiro, visto ser muito restrito o capital, derrubei a parede que separava a sacristia da capela, e acrescentei mais 3,60 centímetros, e como a sacristia ficou parte do salão contíguo, construído quando se fez a reconstrução, e que tem 6,20 centímetros de comprimento, 3,60 de largura e 4,50 centímetros de altura, com duas janelas e duas portas (N.E.: evidentemente, a vírgula original separa metros de centímetros). Cerquei também todo o terreno, ajardinando-o em grande parte.

As festas de Santo Antonio em 1914 foram deslumbrantes. Não tendo havido festeiro, nomeei uma comissão de exmas. sras., presidida pela muito prendada e virtuosa senhorita Zizi Martins, que angariaram as prendas para o leilão que produziu a receita indispensável para cobrir as despesas da festa.

D. Carlotinha Gomes, interessante senhorita que presidiu à comissão do baile em 1914
Foto publicada na obra original

Estas festas começaram por um novenário e terminaram com a celebração de uma solene missa cantada, com sermão ao Evangelho pregado pelo revmo. cônego dr. Martins Ladeira. A parte coral foi desempenhada pela exma. sra. d. Branca Serra, coadjuvada pela distinta senhorita Alice Machado Carvalho, que com a mais admirável boa vontade, espírito de fé e bondade de coração, além do maior desinteresse possível, tudo fizeram para um imponente resultado. A capela foi enfeitada pelas srs. Alzirinha de Campos Assumpção e Alzira de Assumpção Netto, e a expensas suas, pelo que muito se deve a estas duas piedosíssimas e carinhosas senhoras.

O desenvolvimento que tomou a capela impôs-me o dever de a alargar mais, estendendo a sua ação a um plano futuro mais vasto. Para isto, apelei novamente

para o sentimento religioso da família santista, sempre disposta a concorrer para todas as ações nobres e elevadas. Pressurosa acudiu à minha súplica, e  uma comissão presidida pela gentilíssima senhorita Carlotinha Gomes, a quem a capela já é tão grata, promoveu um baile nos salões do Grande Hotel Parque Balneário, na noite de 11 de julho de 1914, que teve uma inusitada animação, rendendo líquido 2:004$000 mil réis.

Mal se lembravam esses pares agitados pelas danças e pela mocidade, esses convidados assistindo a uma festa de elegância e de luxo, que estavam contribuindo, quase insensivelmente, entre os esplendores da música, das toaletes, das jóias, das flores, dos perfumes, para a realização de um grande e salutar melhoramento.

Com o produto desse baile que deixou as mais saudosas recordações, resolvi construir um salão para ministrar o ensino do catecismo, e no caso de se transformar em paróquia, servir de residência presbiterial e mais uma sacristia, e quarto para o empregado da capela, com 10,50 x 3,60.

A sacristia e o quarto do empregado, que ficam atrás do altar-mór, têm 75,0 x 2.

As obras foram contratadas com o construtor Modesto Serio, que já as deu prontas em 24 de setembro do corrente ano.

Eis aqui, resumidamente, o pouco que tenho feito como reitor da Capela de Santo Antonio do Embaré, para redundar em glória de Deus. Não me poupei a esforços e canseiras, manifestando bem, creio eu, o meu amor pela santa religião, pela sua propaganda e pelos seus frutos proveitosos.

Consola-me no meio de tantas lutas, ter sentido sempre a meu lado, animando-me a prosseguir, a bondade de tantas pessoas de todo este laborioso povo santista, a quem eu quero tanto bem, e a quem eu voto um grande reconhecimento, desejando-lhe sempre as prosperidades que merece.

Não quero, porém, fechar estes apontamentos sem mais uma vez realçar o nome da exma. sra. d. Eulina Nunes Pires. A piedosa senhora dedicou à reconstrução da capela um grande entusiasmo, devendo-se em grande parte ao seu estímulo e generoso auxílio a obra religiosa que tanto se tem desenvolvido. O seu nome está indelevelmente ligado à capela do Embaré, para que Deus lhe conceda todos os bens terrenos de que é tão digna

Padre Gastão de Moraes